Associação Cultural Moinho da Juventude
O Público
Domingo, 14 de Novembro de 2004
A Associação Cultural Moinho da Juventude luta há 20 anos por melhorar as condições de vida dos moradores da Cova da Moura e alterar a imagem de gueto que o bairro da Amadora, um dos mais problemáticos dos arredores de Lisboa, projecta nos que não conhecem a sua realidade. Não conseguiu mudar tudo, mas mudou muita coisa. Por Ana Landeck e Bruno Alves (textos) e Rui Gaudêncio (fotos)
"Aí não entro", avisa o taxista, enquanto pára o carro junto à entrada sul do bairro da Cova da Moura, na Amadora, junto à ambulância que troca seringas usadas. "Os carros que aí entram saem com menos dinheiro."
O panorama neste extremo da Rua do Moinho não é, de facto, animador: um campo de futebol degradado, onde os toxicodependentes tomaram o lugar dos atletas, casas rodeadas por montanhas de lixo, uma figura ao longe, que parece estar a cultivar a terra, e homens encostados às paredes, que olham com desconfiança para o carro da PSP que acaba de entrar no bairro.
Já lá dentro, no cimo de uma pequena elevação, o som de crianças a brincar denuncia um cenário muito diferente, à medida que se vislumbram os portões da creche "A Árvore". O contraste não podia ser maior. Desenhos de cores vivas decoram as paredes da creche e o riso das crianças projecta uma alegria que corta com a melancolia da paisagem envolvente. É uma ilha dentro do bairro.
As instalações da Associação Cultural Moinho da Juventude, a completar 20 anos de vida, situam-se num edifício labiríntico todo remodelado. A associação começou a sua actividade com um trabalho informal de animação de crianças e luta pelo saneamento básico e foi constituída pelos próprios moradores. Não conseguiu mudar tudo num dos bairros mais problemáticos dos arredores de Lisboa, mas mudou muita coisa.
Good lieve Meersschaert, uma belga residente em Portugal desde 1978, e o açoriano Eduardo Pontes, seu marido, foram os impulsionadores do projecto. "No início não tínhamos a intenção de criar uma associação, fomos desenvolvendo trabalho com os moradores e crianças e acabámos por ficar", diz Good lieve .
Para melhorar as condições de vida dos moradores e promover a cultura cabo-verdiana, que caracteriza grande parte do bairro do Alto da Cova da Moura, a associação tem hoje inúmeros projectos que abrangem crianças, jovens e adultos.
"Trabalhamos para os sócios, população alvo, e para toda a gente, independentemente da etnia. Até já chegámos a ter aqui crianças moldavas", diz Ester Ferreira, responsável pela contabilidade.
"São os contactos e os pequenos favores que temos que nos permitem sobreviver", lembra, referindo-se a todos os apoios essenciais para o funcionamento da associação, nomeadamente o da Segurança Social, a única ajuda permanente, e outros apoios pontuais, incluindo donativos privados. "Quase tudo o que temos foi doado; aquilo que já não precisamos damos aos mais necessitados."
A creche "A Árvore" é um dos exemplos de como estes apoios são indispensáveis. "As verbas disponibilizadas pela Segurança Social são necessárias mas, infelizmente, ainda são insuficientes, porque apenas cobrem metade das nossas despesas", explica Lurdes Mendes, uma das educadoras. "Se não houver um reforço da verba há a possibilidade de a creche fechar, o que é preocupante, porque estas crianças voltariam para as 'amas ilegais', que cuidam das crianças em sítios sem o mínimo de condições", sublinha a educadora.
Outra ajuda imprescindível é a mão-de-obra voluntária. "O que nos vale é o voluntariado europeu. Neste momento temos cá uma alemã e uma húngara", explica Ester, que lamenta que "muitos jovens portugueses ainda não despertaram para estas questões sociais". Além do trabalho voluntário, a associação conta ainda com o esforço e dedicação de muitos outros jovens que cresceram com o Moinho e o vêem como uma referência.
A actual vice-presidente da associação, Anabela Rodrigues, tem 28 anos e sempre viveu na Cova da Moura. Frequentou desde pequena as actividades do Moinho e aos 16 anos começou a dar apoio escolar na associação. Daí até aos 21 foi um instante. Por esta altura já frequentava o terceiro ano do curso de Direito, teve um filho e entrou como coordenadora para o projecto "O Pulo", um curso de formação que ensina os pais a educar os filhos, onde esteve dois anos. Mais tarde, trabalhou como voluntária na área da documentação até assumir a função de coordenadora do grupo de jovens, cargo que mantém até hoje. Foi nesta altura que surgiu, também, o convite para a vice-presidência.
"O Moinho foi fundamental para conhecer a minha identidade e compreender as diferenças que existem dentro da cultura cabo-verdiana. Sem este acompanhamento não teria o gosto que tenho em viver no bairro", conta Anabela, conhecida no bairro por "Belinha".
Anabela aponta o trabalho com os jovens como uma das actividades mais importantes do Moinho, permitindo conhecer os seus problemas e a realidade do bairro. "Este trabalho é gratificante. Alguns dos jovens ajudados pela associação acabam por dar o seu contributo aos mais novos; outros vão passando pelas nossas actividades e agora até têm cargos de responsabilidade."
Ibrantino Freitas tem 21 anos e no bairro todos o conhecem por "Tchino". É outro dos "filhos" do Moinho. "Nasci e cresci aqui no bairro. Quando era miúdo estudava porque era obrigatório mas não sabia o que queria fazer na vida, não tinha ambições. O Moinho conseguiu mostrar-me um caminho."
Em pequeno passava o tempo a jogar "Futsal" e quando deixou de estudar a "Belinha" ofereceu-lhe o lugar de treinador de iniciados. "Passados alguns meses, propôs-me a função de coordenador no grupo 'Bem passa ku nós', onde tento encaminhar outros jovens." Este projecto, criado em 2002, pretende fazer a ponte entre as famílias, a escola e a PSP, de forma a ajudar os jovens mais problemáticos dos 12 aos 24 anos.
"Tchino" diz que os jovens dos 12 aos 18 anos, com quem trabalha, são os mais difíceis, porque muitas vezes deixam-se levar pelas "ilusões de uma vida fácil" e enveredam por maus caminhos. "Temos que tentar ser um exemplo para os miúdos. Mostrar-lhes que através do trabalho também é possível terem uma boa vida."
Um dos projectos que o Moinho da Juventude tentou implementar mas não foi aprovado pelo ACIME (Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas) foi uma iniciativa musical na área do "rap", cujos destinatários seriam os "miúdos do fumo", jovens dos 18 aos 24 anos que, segundo Ester, "não fazem nada e precisam de uma ajuda, de algo que os motive a mudarem de vida".
"Os piores são os de terceira geração. Sentem que estão numa terra estranha e só se sentem integrados aqui na Cova da Moura. É difícil motivá-los porque não estão ligados a nada, o que leva a que muitos escolham o caminho mais fácil. Têm que ser incentivados através das artes."
Para combater um dos grandes problemas do concelho da Amadora, as gravidezes precoces, o Moinho da Juventude também promove o acompanhamento das mães adolescentes.
"Trabalhamos com 19 mães solteiras", diz Niche, uma residente no bairro que também foi mãe adolescente e hoje tenta transmitir a sua experiência a todas as raparigas na mesma situação. Dá-lhes o apoio que um dia recebeu do Moinho.
"Reunimo-nos mensalmente com elas, na creche, para saber como vão as crianças. Cada mãe é acompanhada por uma ex-mãe adolescente, que lhe dá formação parental, e uma preparação para poder ingressar em vários cursos."
A Associação Cultural Moinho da Juventude é um conjunto de vidas que "se interligam e se juntam com os mesmos objectivos", salienta Good lieve . Para ela, além dos muitos projectos de apoio à comunidade, a grande meta agora é a requalificação da Cova da Moura: "Queremos um bairro que seja bom para viver".
Ibrantino Freitas tem 21 anos e no bairro todos o conhecem por "Tchino". É outro dos "filhos" do Moinho. "Nasci e cresci aqui no bairro. Quando era miúdo estudava porque era obrigatório mas não sabia o que queria fazer na vida, não tinha ambições. O Moinho conseguiu mostrar-me um caminho"
Quem vive na Cova da Moura reconhece que "a vida mudou muito desde que o Moinho apareceu". Mas nem tudo é um mar de rosas no bairro da Amadora
Ao percorrer as ruas do bairro da Cova da Moura salta à vista um aglomerado de casas, cada uma com o seu estilo e roupas penduradas nas janelas, muitos cafés-mercearia, cabeleireiros, pequenas lojinhas e uma espécie de Loja do Cidadão, onde é possível tratar de todo o tipo de documentação, desde passaportes, vistos, IRS, viagens, excursões, entre outros. Enfim, nada que não se esperasse de um bairro que aloja cerca de sete mil pessoas. O interior projecta uma imagem mais organizada do que a impressão com que se fica ao chegar às entradas do bairro, onde todo o lixo parece estar concentrado.
No entanto, a Cova da Moura não foi sempre assim. A antiga Quinta do Outeiro era, nos anos 60, um terreno agrícola, com algumas hortas e pouco mais. A grande mudança deu-se com o 25 de Abril e a descolonização, que trouxe consigo um fluxo de retornados portugueses, por volta de 1975-76, seguindo-se depois muitos cabo-verdianos.
"A vida mudou muito desde que o Moinho apareceu", conta Ana Tavares, empregada de limpeza e residente no bairro há 27 anos. "Foi muito bom para as crianças e moradores, até porque antes os pais não tinham onde deixar os filhos."
Vitorino Novais, 52 anos, trabalha no café Flor Africana há 13 e considera que o Moinho tem feito "um óptimo trabalho". "Tem tentado tirar os miúdos da rua e pô-los no bom caminho, através do desporto e de acções de formação. Eles estão sempre em cima do acontecimento e dão o máximo de apoio à população do bairro."
Também Maria Afonso Semedo, cabeleireira e residente no bairro há quatro anos, elogia a acção do Moinho: "Ajudam muito o bairro e os moradores, especialmente ao nível da documentação e a baixar as rendas das casas para as pessoas com pouco dinheiro".
"A imagem do bairro já esteve pior", diz Ester Ferreira, responsável pela contabilidade da associação. "Tanto o Moinho como a própria comunidade têm-se esforçado para melhorar a percepção que as pessoas têm da Cova da Moura. Mesmo a relação com a PSP tem vindo a melhorar, e a polícia consegue entrar aqui sem problemas." Uma das acções que mais tem contribuído para isso é a parceria entre a PSP de Alfragide e o Moinho, através do programa "Bem passa ku nós".
Mas nem tudo é um mar de rosas. Ester admite que pontualmente ainda ocorrem alguns conflitos que contribuem para que a Cova da Moura seja vista como um bairro povoado por "gangs" juvenis, que se dedicam a assaltos e ao tráfico de droga.
É uma das actividades mais antigas da associação e conta com a participação de cerca de 80 crianças que frequentam o 1º ciclo do ensino básico, divididas por quatro turmas e acompanhadas por quatro monitores. "São os monitores que levam as crianças para a escola e trazem as que estão na escola para a associação", diz Ester Ferreira, responsável pela contabilidade da Associação Cultural Moinho da Juventude. Durante o período que estão no ATL (Actividades de Tempos Livres), as crianças recebem apoio escolar e têm direito a alimentação.
Um dos muitos projectos culturais da associação cultural da Cova da Moura, o grupo "Finka Pé" destina-se a manter viva a herança musical cabo-verdiana, promovendo várias actuações, dentro e fora do bairro, tendo já participado nos encontros ACARTE, promovidos pela Fundação Calouste Gulbenkian. O grupo é especialmente popular entre os residentes mais velhos do bairro. "Foi importante para os filhos verem que as mães tinham uma cultura própria, e foi através do batuque que eles se aperceberam disso", explica a belga Good lieve Meersschaert, que ajudou a fundar a associação em 1984.
Este projecto foi criado com o intuito de fortalecer a relação entre pais, filhos e comunidade. É um curso de formação que ensina os pais a lidar e a educar os seus filhos. Estão envolvidos neste trabalho três técnicos que orientam cinco coordenadoras. Estas, por sua vez, apoiam o trabalho do grupo "Pais do Bairro", que dá formação, semanalmente, a sete famílias, com crianças entre os dois e os quatro anos. No total, são cerca de 105 famílias que contam com o apoio da associação.
No âmbito da iniciativa comunitária EQUAL, e em conjunto com mais 16 parceiros, o Moinho da Juventude criou o serviço de Emprego Apoiado, que tem por objectivo facilitar o acesso ao mercado de trabalho das pessoas em desvantagem. O projecto funciona através de planos individuais de suporte, que procuram dotar as pessoas das ferramentas necessárias para garantir este acesso, e insere-se noutro dos grandes pilares da associação: a formação profissional dos seus moradores.
Desde Maio de 2003 acolhe 48 crianças entre os quatro meses e os três anos e abre as portas todos os dias das 5h30 às 21h30. Construída com o contributo de doações, é um dos projectos mais importantes para o Moinho e para os moradores do bairro, que habitualmente recorriam àquilo que chamam de amas ilegais. Por uma mensalidade de 70 euros, as crianças ficam entregues a dois educadores e 11 auxiliares e têm direito a alimentação completa. As mensalidades pagas pelos pais e o subsídio da Segurança Social são fundamentais, mas insuficientes: sem um reforço de verbas por parte da Segurança Social a creche arrisca-se a fechar.
O projecto "Sabura" tem a sua génese nos passeios dominicais promovidos, desde 1992, pelo Moinho, sob o tema "Descobrir África na Cova da Moura", e é uma das principais propostas para a requalificação do bairro. Os passeios turísticos incluem uma multiplicidade de actividades, que vão desde provas gastronómicas até visitas aos cabeleireiros do bairro, e contam com a participação de visitantes de toda a Europa.