• Batuque Finka Pé
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Antes de mais, obrigada por estarem aqui connosco, nesta celebração dos 25 anos oficiais do Moinho da Juventude, que conta na verdade com 28 anos de trabalho assentes nas Traves Mestras que aqui nomeamos e cujo valor reafirmamos: Interculturalidade; Comunicação; Gender; Respeitar as Convicções; Cooperação; Empowerment; Meio Ambiente; Criatividade; Persistência; Qualidade; Eficiência e Eficácia; Ser Solidário.

 

Não é fácil fazer um balanço destes 28 anos.

O tema da água, escolhido para este aniversário, liga o passado, presente e futuro na história do Moinho, que tem as suas raízes na luta por esse direito fundamental. A Associação Cultural Moinho da Juventude, Instituição Particular de Solidariedade Social e Organização Não-Governamental para o Desenvolvimento, nasceu das conversas dos moradores à volta do chafariz onde, sobretudo as mulheres, iam buscar água. Foi ali que se iniciou a luta pela instalação de água e esgotos para 900 moradores.

Foi uma luta fundamental há 28 anos. É hoje uma luta que continua a fazer sentido quando a UNESCO declarou 2013 como o Ano Internacional da Cooperação pela Água, ao mesmo tempo em que se insiste em Portugal na privatização de um recurso tão fundamental, tão estratégico, tão precioso. Este é também um momento em que amigos do Moinho elaboram em tandem com os moradores um sistema de aproveitamento de águas pluviais, um sonho a realizar aos 25 anos de existência do Moinho na Cova da Moura e em Prábis, Guiné Bissau.

Também foi junto ao chafariz que se iniciou a luta das empregadas domésticas por condições de trabalho e de vida melhores. Fez sentido há 28 anos como hoje, num momento em que assistimos a um ataque sem precedentes ao valor do trabalho.

Fez sentido há 28 anos combater a crise em conjunto com os mais excluídos. Não podia fazer mais sentido hoje. Continuamos a trabalhar para o reconhecimento do estatuto da carreira de técnico e Operador da experiência em Pobreza e Exclusão Social em conjunto com a Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional.

  

 

Foi também junto ao chafariz que surgiu a ideia de uma biblioteca. Fez sentido há 28 anos. Faz hoje cada vez mais sentido, como mais uma via para a promoção da cultura como factor de afirmação e desenvolvimento das comunidades. É também com esta convicção que, “há duas décadas celebramos na Cova da Moura o Kola San Jon, festividade de Cabo Verde que testemunha exuberantemente o modo como os imigrantes vêm enriquecer a sociedade e a cultura portuguesas”, brilhantemente documentado no filme de Rui Simões “Kola San Jon é festa de Kau Berdi”. Fez sentido há 28 anos, como hoje, celebrar as tradições culturais, e incentivar o seu convívio harmonioso com a criatividade dos nossos jovens que, no nosso estúdio produziram e editaram 2 álbuns de Rap já este ano.

Fazia sentido há 28 anos, como hoje, a luta pelo direito a uma habitação digna, como a luta contra a especulação imobiliária que continua a fazer tantas vítimas perante os nossos olhos incrédulos. Estamos unidos na nossa luta pela requalificação do bairro.

Fazia sentido há 28 anos lutar pelo direito dos imigrantes a uma cidadania plena, como faz hoje perante os problemas sociais que se agudizam e perante os discursos de vendilhões populistas que empurram responsabilidades para estas comunidades provocando nos mais incautos a adesão ao racismo e à xenofobia.

 

  

Fazia sentido há 28 anos lutar pelo desenvolvimento pleno das nossas crianças tirando-as da rua. Como hoje, perante as dificuldades acrescidas em que vivemos. Trabalhamos uma abordagem fundamentalmente preventiva, através da prática quotidiana de desenvolvimento de uma atitude básica de interligação, salientando-se o laço consigo próprio, com o seu corpo e emoções, com a sua própria cultura, as suas raízes, os objectivos e os materiais, a cultura dos outros, o laço com o universo. Trata-se de uma abordagem que parte de uma concepção simples da prevenção da criminalidade que diz que quem tiver um laço com o meio, não vai prejudicar esse meio. O que se faz é tentar criar um clima de base em que as crianças se sintam bem e a partir daí estabeleçam um laço com o meio: não há controlo externo, mas sim a formação interior de uma atitude. Continuamos a nossa luta por uma creche de raiz!

Fazia sentido há 28 anos, como hoje, preservar a cultura dos povos e encará-la como um poderoso veículo de desenvolvimento e de integração fomentando o respeito pelas diferenças. Esta Europa que tudo quis uniformizar, negligenciando a sua maior riqueza, a diversidade cultural, reforça esta nossa convicção.

Fazia sentido, há 28 anos trabalhar o gender. Faz sentido hoje. É verdade que as mulheres têm um passado de silêncio que lhes foi imposto. Um inexprimível silêncio. E talvez essa condição tivesse desenvolvido a tal “capacidade de diálogo interno”, certamente uma condição de sobrevivência para muitas. Talvez. Sentirem o desânimo de não serem consideradas, e negarem o desânimo logo a seguir. Sozinhas. Talvez. Sabemos que não podemos, por uma espécie de magia simpática, atravessando os tempos, sarar os sofrimentos das mulheres. Mas podemos, assumindo o pesado fardo da compreensão, fortificar-nos todos. Homens e mulheres. E, já agora, abdicar daquela versão do feminismo que sugere que há uma guerra contra os homens, que é um anátema para as mulheres inteligentes. Não podemos aqui deixar de fazer uma referência às mulheres do Batuque que acabaram de editar o disco “Finka Pé – Mulheres que dançam pela liberdade”, bem como a duas entidades, a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género e o Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural, cuja conjugação de financiamentos nos permitem desenvolver um trabalho que reforça o valor inestimável da cidadania participativa em que sempre investimos e, também por essa via, o desenvolvimento solidário de homens e mulheres.

  

Fez sentido o Djunta Mo que possibilitou a construção do bairro. Faz sentido hoje, quando um jovem arquitecto, autor de um dos murais que visitaremos se confessou comovido quando sentiu que no bairro, em vez de ser a arquitectura a descobrir o arquitecto foi o arquitecto que, aqui, descobriu a arquitectura.

Fez sentido, Há 28 anos, o valor inestimável do Djunta Mo. Como hoje. Quando a crise económica que tem evoluído desde 2008 tem abalado os alicerces de milhões de pessoas na Europa. De repente, o emprego tornou-se incerto, o crédito foi restringido a poucos, o consumo foi reduzido ao essencial, os serviços sociais sofreram cortes profundos, e uma nuvem escura ensombrou o futuro dos seus filhos, revertendo o padrão de expectativas mais optimistas para a próxima geração. A crise não surpreendeu aqueles que não esperavam muitas melhorias nas suas vidas. Surpreendeu todos os outros. Os que adoptam hoje práticas de vida alternativas reforçando os laços de solidariedade dentro da comunidade em que se inserem, adoptaram, em muitos casos, o mesmo tipo de práticas que vivemos aqui, eventualmente com a mesma eficácia para as suas vidas. Porque há uma única maneira de resistir. E ela passa pela solidariedade, pela cooperação, pela interajuda, pelo Djunta Mo.  Temos todos muito a aprender uns com os outros. Para acabar com uma identidade que tenta ajustar-se ao mundo alardeando uma garantia para toda a vida exclusivamente graças a essa admirável perícia de uma incessante auto-obliteração. E temos todos que parar. Temos que pensar, reflectir nas consequências dessa aventura moderna.

 Tanto o pensamento como o amor exigem muito de nós, tornam-nos humildes e conscientes de que só a verdadeira amizade, a solidariedade, o Djunta Mo, nos permitem acreditar que as manhãs podem ser pródigas.

O bairro da Cova da Moura tem problemas, todos sabemos. Mas sabemos também que é um espaço luminoso de solidariedade, de interajuda, de espírito comunitário, de cultura, de intervenção, de cidadania. Neste momento, mais de 500 crianças, jovens e adultos participam diariamente nos projectos do Moinho.

António Ramos Rosa disse em Janeiro de 2006, na inauguração do Centro de Formação da ACMJ, Centro de Documentação “Stanislaw Tomkiewicz” e Biblioteca que recebeu o seu nome:

  

“Existe um lugar mágico de vida e sensibilidade. Isto é que é Portugal. Um lugar mestiço. Faz-me lembrar as mantas de retalhos que a minha mãe fazia. A nossa sociedade é isto e não apenas aquele quotidiano das pessoas esmagadas e inexpressivas que vemos nos transportes públicos. A festa também faz parte da vida e estas pessoas estão vivas. Isto é vida. O humano é divino”.

Faria sentido há 28 anos. Faz sentido hoje.

A verdade é que, como há 28 anos teremos ainda de recomeçar muitas vezes. E de todas as vezes a impotência pode afastar-nos de todas as tarefas difíceis, de todas as obras importantes.

Chesterton escreveu: "Havia homens, pensava eu, capazes de jejuar durante quarenta dias para terem a alegria de ouvir um melro a cantar. Outros havia capazes de atravessarem as chamas para encontrarem uma margarida".

É bonito! Nós dizemos que ainda há. Aqui mesmo, entre nós.

Acreditámos há 28 anos. Acreditamos hoje que a capacidade de pensar, de contemplar, de parar, de ser subjugado pelo belo, é comum a homens e mulheres, é surpreendentemente tenaz e sobrevive no meio das distracções mais brutais.

Compreender a beleza a partir de dentro e desse modo estimular e aprofundar o nosso sentido da pura amplitude e plenitude da realidade, às vezes sem sentido, mas também vibrante, que nos rodeia a todos. Esta foi uma ideia sempre presente nos 28 anos de trabalho que desenvolvemos no Moinho, convictos de que só assim reconquistamos a nossa solidez de pessoas, a nossa densidade interior, tão necessária para dar sentido a uma grande dose das nossas energias e afinidades. Não sabemos o que todas as transformações a que assistimos trarão. Não cremos que alguém possa responder a essa pergunta. Mas cremos que as transformações sociais resultarão dos papéis que homens e mulheres desempenharem.

  

 

 

Fez sentido contar com muitos de vocês há 28 anos. Faz sentido hoje, continuar a contar com todos vocês.

Obrigada por tudo!

Bem hajam

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