Intervenção do CIR – Corpo de Intervenção Rápida -  

Alto da Cova da Moura, Buraca, Aguas Livres – Amadora - Portugal

Quinta-feira, 05-02-2015

Apelo da Associação Cultural Moinho da Juventude

Os acontecimentos na esquadra do Corpo de Intervenção Rápida em Alfragide encheram-nos de angústia e revolta. Em conjunto com as vítimas da agressão policial e com os moradores e pessoas que trabalham no bairro da Cova da Moura fizemos uma reconstituição dos acontecimentos. Flávio Almada e Celso Lopes são vítimas da agressão, são colaboradores e fazem parte dos corpos gerentes da Associação Cultural Moinho da Juventude[1].

No verão de 2013 enviámos 3 queixas sobre intervenções policiais da Esquadra do CIR em Alfragide e as esquadras da PSP de Alfragide e Damaia ao ACIDI. A UAVIDRE – Unidade de Apoio à Vítima Imigrante e de Discriminação Racial ou Étnica - elaborou as queixas no âmbito da discriminação racial enquanto contra-ordenação. Paralelamente às queixas, e na sequência das diligências destes organismos, demos conhecimento dos factos à Inspecção Geral da Administração Interna (IGAI), para iniciar um processo disciplinar contra os agentes policiais que realizaram as agressões. Aguardamos ainda o resultado.

As pessoas não se podem calar só porque têm medo. Não há semana que não se veja no nosso bairro homens/mulheres de qualquer idade, dos mais velhos aos mais novos, deitados no chão, quase nus encostados à parede, numa imagem do mais degradante para o ser humano.

Perante situações destas, onde a indignação e a revolta se instalam, é esta a visão que as crianças do bairro têm da polícia. Crescem com este sentido de revolta que se vai transformando em raiva e ódio em relação à polícia, em vez do sentimento de protecção que esta entidade deveria transmitir aos mais pequenos. É preciso mostrar respeito para ser respeitado.

Queremos cultivar um mundo onde nos sintamos protegidos na presença da polícia. A PSP refere-se à segurança pública. O que aconteceu no dia 5 de Fevereiro parece um cenário de guerra, onde não existe respeito, compaixão, solidariedade, fraternidade. O Moinho apoia, respeita e valoriza o trabalho da polícia, contudo condena quaisquer atos de violência (física e psicológica). Alertamos para o mundo que estamos a construir para as nossas crianças e jovens, onde crescem rodeadas de medo, de revolta, de ingratidão. Essa batalha é de todos nós e de todos os dias. Não é só nossa, não é só da polícia, não é só da comunicação social, não é só de cada um de nós. Todos temos que lutar por um mundo justo, onde a comunicação prevalece e onde a violência não é utilizada, nem como último recurso. Violência gera violência e, então, a guerra nunca terá fim.

Iremos contactar todas as instâncias nacionais e internacionais, para que nunca mais esta situação se repita, para que nunca mais um jovem seja maltratado física e verbalmente pelo facto de ser africano.

 

Perguntas:

Como é que o repórter do Correio da Manhã TV, Miguel Curado, teve tão rapidamente acesso a tanta informação sobre os acontecimentos que se passavam na esquadra de Alfragide?

Porque é que o jornalista do Correio da Manhã transmite informações erróneas sobre o Bairro da Cova da Moura mencionando, sobre episódios passados há 10 anos, a existência de 3 polícias mortos no bairro? Esta informação é incorreta pois foi 1 agente da PSP que morreu na Cova da Moura. Lamentámos profundamente a sua morte. Acrescentamos:

  • Ireneu, agente da PSP da esquadra de Alfragide, de Trás-os-Montes, foi morto na Cova da Moura em Março de 2005. O Moinho da Juventude organizou naquela altura “Uma Marcha da Paz”. Ireneu tem memorial exposto na esquadra de Alfragide.
  • Felisberto, agente da PSP da esquadra de Damaia, crescido na Cova da Moura, com nacionalidade cabo-verdiana e portuguesa, assassinado em serviço na Damaia em 2002. Felisberto não tem memorial exposto na esquadra de Damaia.

Porque é que no dia 06/02/2015 o jornalista Hernâni Carvalho, nas Queridas Manhãs da SIC, condena os jovens sem saber nada a seu respeito?

Por que razão alguns “jornalistas”, não fazem absolutamente nenhum esforço para ouvir os testemunhos das pessoas envolvidas e agredidas, ouvindo apenas a versão da polícia?

Quando vai o governo tomar medidas para prevenir, evitar, impossibilitar este tipo de acção brutal e desproporcionada e contra os direitos humanos por parte de alguns agentes policiais?

Exigimos que sejam tomadas a sério as queixas dos moradores da Cova da Moura em relação a intervenção de alguns agentes do CIR/PSP de Amadora. (Estão entregues e sem resposta 3 queixas, formuladas em conjunto com o ACIDI (agora ACM) em Agosto de 2013.)

Precisamos do apoio eficiente e eficaz do Alto-comissário do ACM, Pedro Calado.

Convidamos para participar na nossa ação de formação sobre comunicação não violenta (Marshall Rosenberg) no dia 11 de Abril de 2015.

Gostaríamos de avivar a memória dos esquecidos, que em 10/12/2007 o Moinho da Juventude foi galardoado pelo Parlamento Português com o prémio “Direitos Humanos”. Estamos cientes que tal distinção só foi possível graças ao trabalho incansável dos jovens, colaboradores e elementos da Direcção do Moinho. Afinal de contas onde é que nos equivocámos?

Quem não se sente não é filho de boa gente. Nós sentimos e temos muito orgulho das nossas origens. Continuaremos a construir num “djunta mo” (juntar das mãos) um Mundo Melhor.

 

 

A minha aldeia é todo o mundo

Todo o mundo me pertence,

Aqui me encontro e confundo

Com gente de todo o mundo

Que a todo o mundo pertence

António Gedeão



[1] Flávio: “Levei o Miguel comigo à esquadra porque achei importante que ele aprendesse como podemos praticar a comunicação não-violenta de Marshall Rosenberg, formação que tivemos com 60 colaboradores do Moinho da Juventude no dia 17 de Janeiro de 2015.”