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2008-05-05

Moradores mostram outra Cova da Moura

DN Online - 05.05.08

DN Online - 05.05.08


Bom dia!, diz Bebucho aos que todas as manhãs saem da Cova da Moura para ganhar a vida. Ainda não começou a clarear, mas a jornada começa cedo, por volta das cinco, seis da manhã e Bebucho quis mostrar que a Cova da Moura é igual aos outros bairros: "Há pessoas honestas e trabalhadoras que saem de manhã para trabalhar." O servente, de 23 anos, fez o workshop da produtora Até ao Fim do Mundo porque "teve um tempo parado". As aulas começaram em Outubro e duraram três meses. Quinze chegaram ao fim com um documentário para mostrar, um filme sobre a comunidade, que tiveram oportunidade de mostrar ontem ao bairro, com o bónus de terem Catarina Furtado como anfitriã do evento.

Vestida de gala, "porque um evento na Cova da Moura é igual a um espectáculo noutro sítio qualquer", num palco montado no meio do bairro, a apresentadora entrevistou os realizadores, introduziu os documentários, dançou com um dos jovens autores e encantou a dona Juvita, que ia preparando cachupa numa mesa por perto. "Um programa destes tem a capacidade de intervir na sociedade. É de facto serviço público quando se mostra o que de bom aqui se faz, sem tentar branquear o que há de mau", diz a apresentadora da RTP, que faz questão de salientar que toda a equipa foi muito bem tratada e que foram as próprias pessoas da Cova da Moura a tratar da segurança do evento. Mas o que é importante, conclui, é a mensagem dos documentários: "Positiva, importante para desmistificar ideias feitas."

Os documentários são o resultado de um workshop de televisão, onde lhes foi ensinado como fazer reportagens e como filmar. Depois, era com eles: escolher o tema, filmar, fazer as entrevistas. Armados com uma câmara saíram para a rua para tentar mostrar outras facetas da Cova da Moura. No documentário de Bebucho nem sequer há muitas palavras além do bom dia que oferece aos que saem apressados, mas a mensagem passa.

Stef, Strike e KDG estão habituados a fazer passar a mensagem através do hip-hop. Em português ou em crioulo, estes MC (mestre-de-cerimónias) da Cova da Moura usam a música para falar do que se passa no bairro. Já chegaram tarde ao workshop, porque todos têm empregos e era difícil cumprir os horários, mas o tema foi óbvio desde o início: o hip-hop é música de intervenção e em Kova Hop(e) é também a voz da esperança.

De esperança falam também o Bino, o Jackson e o Luís. Em De cabeça erguida entrevistaram vizinhos que passaram pela prisão e conseguiram refazer a vida. Os três sabem, porque são muitos os casos que conhecem na comunidade, como é difícil recomeçar. "Foi fácil falar com eles porque são nossos amigos de infância, havia confiança para falar de experiências difíceis", dizem.

O Gui, o Mauro e o Wilson abandonaram a escola cedo e não querem que os mais novos cometam o mesmo erro. O documentário que fizeram é sobretudo um aviso: Não larguem a escola! "As ruas chamam-nos", reconhece Gui, que deixou as aulas depois do 9.º ano, mas "a escola é um investimento, às vezes o único que os nossos pais podem fazer", diz. "Não quero que os meus filhos andem à toa na rua", completa Wilson.

Jailson, Heidir e Ginga aproveitam para falar do que falta no bairro. Com cinco equipas de futebol federadas não há um único ringue com condições para fazer jogos em casa. Em Bola Ku Nós, os jogadores fazem as suas reivindicações. A principal reivindicação de Paula Silva e Lena Amaral é respeito. As duas irmãs foram as únicas raparigas a concluir o workshop e escolheram um tema que, dizem, afecta muito todos os habitantes: a relação com a polícia. Entrevistaram moradores e polícias e tentaram dar Outra Visão. Paula gostava de continuar a fazer documentários até que as coisas mudassem na Cova da Moura.

 

http://dn.sapo.pt/2008/05/05/media/moradores_mostram_outra_cova_moura.html

 

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