Associação Cultural Moinho da Juventude
Texto de Ana Vasconcelos, pedopsiquiatra, no dia da inauguração do Centro de Formação da Associação Cultural Moinho da Juventude 28 de Janeiro de 2006
Stanislas Tomkiewicz, TOM para os amigos, foi um pedopsiquiatra e psicoterapeuta reconhecido, internacionalmente que dedicou, toda a sua vida, às crianças e aos adolescentes em sofrimento psicológico e vítimas de injustiças e mais tratos.
Mostrando-se, sempre, em empatia solidária com o sofrimento psicológico das crianças e dos jovens, activo defensor e praticante da “atitude activa afectiva”, TOM transmitia, sempre, às crianças e jovens que tratava, a convicção de que eram dignas de ser amadas, oferecendo-lhes os meios para se fazerem amar.
Militando sempre pelo humanismo nas práticas terapêuticas destinadas às crianças e aos jovens em sofrimento psicológico e em risco, dedicou toda a sua vida a encontrar modos inovadores e eficazes na reeducação de adolescentes socialmente desadaptados e em risco social.
No Centro para Jovens em risco que coordenou em Paris, durante quase 30 anos e que se tornou numa referência internacional, Tom e os seus colaboradores, alicerçaram a sua prática clínica no objectivo de adaptar o adolescente a si próprio, como forma de o ajudar a reconciliar-se com a vida, oferecendo-lhe um quotidiano baseado na democracia, na liberdade, no voluntariado e em actividades como o cinema e a fotografia.
Tom tinha um olhar muito brilhante e matreiro, um rosto aberto e franco, um sorriso que nos acolhia sempre como bem vindos. Sabia ouvir todas as vozes sem palavras e toda a música secreta e única que toda a pessoa tem dentro de si.
Nasceu na Polónia, numa família judia, sobreviveu ao gueto de Varsóvia, foi deportado para um campo de concentração e sobreviveu a uma longa tuberculose. Todas estas experiências despertaram nele a vontade de se dedicar à pediatria e à pedopsiquiatria.
“Trabalho com os adolescentes porque me roubaram a minha própria adolescência.”, costumava dizer quando recordava os seus anos de juventude passados dentro do gueto de Varsóvia.
Livre-pensador, foi um combatente incansável pela Convenção dos Direitos da Criança, lutando por tudo o que considerava ser um abuso de poder ou uma violência sobre as crianças e os jovens.
O essencial, para Tom, estava na verdade da pessoa, acreditando sempre na capacidade que toda a pessoa tem para se reconstruir e para utilizar as suas forças e a sua inteligência nessa reconstrução. A sua experiência pessoal, os seus conhecimentos profundos da pessoa humana, a sua largueza de horizontes, a sua coragem, levaram-no, sempre, a pôr a fasquia muito alta nos seus projectos e realizações.
Não suportava a mediocridade, a estupidez e a injustiça, lutando pela verdade e pela reconciliação.
Por isso, eu sei que o TOM gostaria muito deste bairro e de todo o trabalho do Moinho da Juventude. Penso que ficaria muito contente por saber que o seu nome estava ligado a este projecto do centro de documentação e que nos brindaria com a sua gargalhada franca e o seu “Genial, não acham?”e vos diria que o Moinho da Juventude é um bom exemplo da esperança que teve sempre de que a humanidade continua a saber encontrar soluções inéditas que sabem conciliar justiça social e liberdade individual.
E eu, Ana Vasconcelos, só me resta agradecer à todos vocês, terem aceite a minha sugestão de dar o nome deste meu querido professor que tanto me ensinou a saber lidar com o sofrimento da alma das crianças e dos jovens.